Anseios

Quando os dois ponteiros do relógio se encontrarem
Quando eu puder esquecer
Quando estiver tudo encaixotado
Quando tudo isso acabar

Quando chover fininho, uma chuva de verão
Quando a inspiração voltar
Quando chegar a próxima estação
Quando tudo, tudo isso acabar

Quero saber o que fazer
Quero pegar no sono
Quero partir de vez
Quero virar tantas páginas

Quero sair por aí
Quero aproveitar pra escrever
Quero ir pro mar, pegar uma cor
Quero virar tantas, tantas páginas

Por que prezo as efemérides

Porque foi como que um raio de sol
depois de longos dias de tempo ruim e só.

Porque foi como descobrir o que já era descoberto,
como se finalmente fosse o que desde sempre fora pra ser.

Porque o "bom dia" passou a tornar bom o dia,
todos os dias e tardes e noites.

Porque foi como um presente em data inesperada,
que se ganha pra ser feliz.

Porque foi como despertar para um sonho
e não mais acordar.

Porque foi você
e sempre será.

Lá, onde se precipitam os granizos

Se me procurar depois da tempestade,
vai encontrar dois olhos vazios,
de quem não sabe para onde ir.

Não me sinto viva,
mas uma dor insiste em doer
não sei em qual parte de mim.

Sem abrigo, num lugar qualquer,
onde a chuva que resta
ainda me molha.

O vento me recostou aqui
e eu, sem forças,
não ouso mudar o que me foi dado.

Pobre da margarida, que foi despetalada

Tomei um novo caminho,
cujo rumo desconheço;
um destino incerto.
E agora estou de volta,
de novo envolta
pelo meu velho-novo não saber.
Em busca do simples,
da singela descoberta,
do desapego ao findo,
da despreocupação
com o que há de vir a ser.
Em busca do saber viver,
do saber valer-se do instante,
que acaba num segundo,
num tempo que não vejo passar.

Estado de grande inquietude

O céu desaba.
O trem não chega.
O guarda-chuva que não abre.
Um dia tudo desanda.
A porta emperra, a casa cai.
A esperança se esvai, o amor acaba.
Por isso, e apesar disso,
sou um sobreposto de ilusões.
Angústias, desejos, frustrações,
fantasias, medos, euforias.
Se, de repente, eu pudesse me livrar de tudo,
seria leve como um nada;
nem existiria.
Mas não.

Sorte têm os que não pagam passagem

Passa-se a semana esperando o fim.
Do mês, espera-se o salário.
Do amor, o casamento.
Do filho, o reconhecimento.
Do neto, o bisneto.
Passa-se a vida esperando a velhice.
E, quando esta chega, esperamos, por fim,
que ainda nos haja um pouco de memória
para lembrarmos, saudosos, do que passou.

Se perguntarem o que faço da vida

Pesco palavras.
Entre outras tantas,
palavras que traduzam
o mais dissimulado dos sentimentos,
o mais embaraçado dos pensamentos.
Palavras que nomeiem
até mesmo o inominável.
Por isso, veja como estou nestas palavras.
Por isso, veja que nestas palavras
nada é ao acaso.