Ultimato

Cansada de discutir em vão com seu inconsciente, ordenou:
- Desapareça já dos meus sonhos!

Essa nuvem é uma ovelha

Eu amo as minhas plantas,
que eu rego dia sim, dia não.
E em troca elas vão se espichando
sempre para o lado do sol.

Eu amo o meu gato,
que está cada dia mais amarelo e safado.
Passa o dia na rua,
mas sempre aparece na hora de comer.

Eu amo os cachorros da vizinhança,
que latem felizes e irritantes.
Sempre metidos com tudo o que se passa,
lembram que há vida lá fora.

Eu amo as árvores da rua,
que se põem a balançar quando venta.
Nessa verde e leve dança,
exibem sem querer as suas formas.

Eu amo o meu armário,
onde tudo é organizado por gênero e cor.
Eu dou a ele a perfeita ordem
que gostaria de dar a tudo na vida.

Eis aqui os meus miúdos

Não é por convicção que recolho e escondo agora
todos os vestígios dessa realidade passada,
que nem mesmo a prece mais dorida e profunda
seria capaz de reavivar.
É minha vontade de te imitar,
nessa saída sutil e ilesa,
nessa certeza incontestável,
nesse ânimo que não se exalta,
que não implora - nem cede -
que não se arrasta em humilhações.
É através dessa varredura que intento seguir
o caminho que há de ser seguido,
sem lembranças a ferir.
Um caminho como o seu,
por onde quase se flutua,
tal o peso da liberdade;
por onde se segue aberto
tão somente ao que é novo,
fresco, leve,
isento de bagagem.
Dia a dia, vou vendo os retratos,
traiçoeiramente felizes, do passado
tomando colorações cada vez mais opacas,
frias,
que começo a considerar
se não foram eles, na verdade,
sempre tristes assim.
Mas não se engane.
Saiba que, por hora,
não é digno de credibilidade
esse novo caminho que simulo seguir,
pois não é sem artifícios que me declaro incólume
à verdade de que,
ainda que eu me desdobre em estratagemas,
jamais poderei recolorir de tons alegres
esses turvos retratos que agora me invadem;
de que nem o mais perspicaz jogo de chantagem
poderia fazer serem cumpridas
as promessas proferidas em embriaguez,
por quem não olha pra trás.
Minha descabida esperança
tem horas que ainda me planta uma ponta de dúvida
de que é possível ser verdade;
minha razão, todavia,
pede que eu me curve de uma vez
ao veredicto irreversível do tempo:
juntar os cacos do passado
é empreendimento inútil.
Há que se entender: acabou.
Por isso, vou recolhendo agora
todos os vestígios dessa história,
no intuito de te imitar
em tão ilesa saída.