Eis aqui os meus miúdos

Não é por convicção que recolho e escondo agora
todos os vestígios dessa realidade passada,
que nem mesmo a prece mais dorida e profunda
seria capaz de reavivar.
É minha vontade de te imitar,
nessa saída sutil e ilesa,
nessa certeza incontestável,
nesse ânimo que não se exalta,
que não implora - nem cede -
que não se arrasta em humilhações.
É através dessa varredura que intento seguir
o caminho que há de ser seguido,
sem lembranças a ferir.
Um caminho como o seu,
por onde quase se flutua,
tal o peso da liberdade;
por onde se segue aberto
tão somente ao que é novo,
fresco, leve,
isento de bagagem.
Dia a dia, vou vendo os retratos,
traiçoeiramente felizes, do passado
tomando colorações cada vez mais opacas,
frias,
que começo a considerar
se não foram eles, na verdade,
sempre tristes assim.
Mas não se engane.
Saiba que, por hora,
não é digno de credibilidade
esse novo caminho que simulo seguir,
pois não é sem artifícios que me declaro incólume
à verdade de que,
ainda que eu me desdobre em estratagemas,
jamais poderei recolorir de tons alegres
esses turvos retratos que agora me invadem;
de que nem o mais perspicaz jogo de chantagem
poderia fazer serem cumpridas
as promessas proferidas em embriaguez,
por quem não olha pra trás.
Minha descabida esperança
tem horas que ainda me planta uma ponta de dúvida
de que é possível ser verdade;
minha razão, todavia,
pede que eu me curve de uma vez
ao veredicto irreversível do tempo:
juntar os cacos do passado
é empreendimento inútil.
Há que se entender: acabou.
Por isso, vou recolhendo agora
todos os vestígios dessa história,
no intuito de te imitar
em tão ilesa saída.

5 comentários:

Suliane Valverde disse...

Do mal!

João Paulo disse...

Você tem um domínio incrível sobre as palavras, e um talento enorme. É uma das formas que você possui de interagir e modificar o mundo de alguma forma.

Suliane Valverde disse...

Você tem idéias ótimas mesmo e uma visão da realidade das coisas fora do normal.

Helen Valverde disse...

Vou encarar o "fora do normal" como algo positivo! rs
Mas admito que usar a "dor", digamos, como matéria-prima, pode não ser lá muito normal! Mas é eficiente... Ela passa a estar mais no papel - ou melhor, no computador! hehe - do que em mim...

Renato disse...

Lindo.. a poesia de seus versos é tão perfeita que parece sentimentos corporificados da forma mais singela e exata. Estou admirado.