Bipolaridade sobre rodas

Andando de bicicleta na descida:
Nossa, sente esse ventinho gostoso!
Adoro bicicleta!
Que ar puro!
Vamos plantar uma árvore!
Ainda bem que pintaram essas ciclovias, né?
Quero ir pra todo lado de bicicleta agora!
Minha perna vai ficar muito malhada!
Haddad maior ex-prefeito que você respeita!
Amsterdam é linda, né?
Acho que vou participar do próximo Tour de France!
La vie est belle!
Chupa, carrocracia!

Andando de bicicleta na subida:
Quem que inventou essa máquina dos infernos?
Minha bunda tá doendo!
Chama um Uber!
Aquecimento global é uma farsa!
Vamos comprar um carro!
Só tem maconheiro em Amsterdam!
Fazer esporte estraga o joelho!
Se o Dória quiser tirar todas as ciclovias e colocar esculturas do Romero Britto no lugar, eu não tô nem aí!
Nunca mais ando de bicicleta na vida!
Acho que engoli um mosquito!
Vamos mudar pra uma planície, pelo amor de Deus!

Guarda-chuva de bolinhas

Andar a pé numa cidade movida pela cultura do carro, seja por escolha ou falta de opção, é sempre um ato de coragem. A maioria dos motoristas não tem o menor respeito pelos pedestres. O tempo todo avançam em pessoas que estão atravessando na faixa, por exemplo. Hoje, pela milésima vez, aconteceu isso comigo. Nenhum carro vindo, começo a atravessar a rua [na faixa]. De repente vem um carro em alta velocidade, certamente acima do permitido, e quase me atropela. Freou a poucos centímetros de mim. Meu coração parou. Nessas situações eu geralmente xingo e depois vou embora quase chorando, inconformada com o fato de que idiotas motorizados dominam a cidade. Mas não hoje. Hoje eu parei, fechei o meu guarda-chuva e dei com tudo no carro. Aí eu tomei distância, me posicionei melhor e sentei o guarda-chuva no vidro. Depois eu fui embora quase chorando, inconformada com o fato de que idiotas motorizados dominam a cidade. O guarda-chuva mais resistente que eu já tive na vida quebrou e eu tomei chuva, mas não me arrependo. Paciência com gente escrota também tem limites.

Registro de atividades

É impressionante a quantidade de coisas que eu faço sem querer no Facebook. Eu não sei bem como acontece… Estou mexendo no celular, alguém da vida real aparece, começo a conversar, esqueço do celular. Quando percebo, estou recebendo notificações de curtidas em um post que eu não sabia que tinha compartilhado - invariavelmente é alguma coisa horrível da qual eu discordo muito. Eu também já curti fotos de pessoas que eu não gostava, enviei solicitações de amizade pra um povo que eu não conhecia, comecei a seguir o Dado Dolabella na época que ele se assumiu feminista - “Mais feminista que eu?”, “Feminista, sim. Mulherista, não.” - cutuquei gente que eu estava stalkeando, compartilhei memes com o Vitor errado. Hoje eu atingi um novo nível de desatenção: meu celular estava tocando; quando fui atender, era eu, ligando pra mim mesma pelo messenger do Facebook. Desliguei na minha cara, é claro.

Esperando o elevador

O que eu não lembro de fazer enquanto estou esperando o elevador: apertar o botão pra chamar o elevador.
O que eu lembro de fazer enquanto estou esperando o elevador: alinhar todos os tapetinhos do corredor - o meu e os dos vizinhos.

O preço do mamão

Hoje na feira ouvi um vendedor contando que, em uma barraca onde três mamões estavam custando três reais, um cara perguntou se ele fazia nove por dez reais e uma mulher quis levar quatro por cinco. Ele disse que aceitou, claro. Ganhou dois reais e ambos os clientes saíram satisfeitos, crentes de que tinham feito ótimo negócio.
Moral da história: aprendam a fazer contíneas, amiguíneos.

A famosa misandria

Chegando no metrô ouvi, saída de uma rodinha de ómis, a frase "essa coisa de mulher estuprar homem". Acho que vou aproveitar a maior lua cheia da história pra beber uma Bloody Mary e brindar a essa misandria toda.

Pastel de beringela

Mal chego na barraca de pastel da feira e o cara já grita:
– BERINGELA??
Todo mundo, num raio de cinco metros, olha espantado pra minha cara, a pervertida da beringela.

Sullyanny

Eu fui uma criança muito quieta. Sabe aquela história de que, quando uma criança está muito quieta, você deve ir atrás, que ela está aprontando alguma coisa? Acontecia o tempo inteiro. Meus pais iam atrás e eu estava tipo lendo, desenhando.
Um dia eu comecei a falar que queria uma irmãzinha. Ela veio, só que com a macaca. Era o dia inteiro correndo, pulando; eu não tinha mais sossego. Um dia eu chamei a minha mãe: "Eu pedi uma irmãzinha, não isso. Não dá pra devolver e pegar outra?" Não deu.
Hoje ela faz aniversário. Parabéns, Suliane! Ainda bem que não deu pra te devolver!

Mansplaining

Estava lendo uns causos hilários de mansplaining e lembrei de um dia, depois de uma festa, de madrugada, que eu tentei pedir Uber e não tinha nenhum carro disponível. Aí um cara falou: "Reinicia o aplicativo." Eu: "Acabei de reiniciar." Ele: "Não reiniciou não, eu não vi. Você não sabe mexer." E começou a me explicar. Isso: não é que não tem carro disponível no meio do nada, de madrugada, é que eu não sei usar o U B E R,   o   a p l i c a t i v o   m a i s   c o m p l i c a d o   d o   u n i v e r s o.
Só ele que sabe,
o gênio,
diferentão,
Mark Zuckerberg,
5 estrelas do Uber,
rei das interfaces.

A banalização da buzina

Estava descendo uma rua dos Higienópolis e os carros estavam todos parados. Não dava pra ver o que estava segurando o trânsito, mas os motoristas, alucinados, buzinavam sem parar, punham a cabeça pra fora e gritavam contra um mal invisível (depois de alguns minutos andando eu vi que era o caminhão recolhendo o lixo [deles] ). Enquanto isso eu ia gritando: "Chupa, carrocracia! Olha eu aqui andando a pé mais rápido do que vocês! Chupa, Higienópolis, FHC!" Mas isso só mentalmente. Fiquei tão compenetrada rindo dos nervosinhos que passei pela padaria onde eu queria parar pra comprar um quiche e nem vi. Fiquei com preguiça de voltar, afinal era subida e eu estava a pé. Fui embora sem quiche. Entrando no metrô, uma senhorinha, distraída que nem eu, foi virar e deu com a bengala na minha perna. Ela pediu mil desculpas e eu só sorri e falei que não tinha sido nada, afinal eu faria a mesma coisa se andasse por aí armada de uma bengala (um dia eu comprei uma tábua de passar e peguei o metrô com ela e foi um desastre anunciado). Depois disso, já no trem, um cara foi virar e me deu uma cotovelada no peito. Ele pediu mil desculpas e eu queria falar que estava tudo bem, afinal eu faço isso o tempo inteiro com as pessoas por motivos de andar por aí armada de dois cotovelos e pouca atenção mas não deu porque eu estava sem ar. No final o que ficou foi o pressentimento de que de que eu estava sendo castigada por ficar andando por aí rindo dosotros, mas o saldo acho que ainda foi positivo, então eu vou continuar rindo, sim. Beijos.